pra moça que canta

tua voz, concerta
meu olhar desconserta.
teu canto me ganha
no canto, te ganho.

aí espira mais forte,
e expira minha paz…
inspira meu norte
inspira e canta uma vez mais.

se ainda é cedo,
me controlo,
não cedo.
mas ao breu…
te tomo ao colo,
te tiro o medo.

aí sem dó, me perverte
e o sol já não veste
onde lá me perdi.

num acorde tocado
acordo assustado:
te ouvindo, sonhei
te ouvindo, dormi.

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…na lagoa

Você com certeza já teve aquelas discussões final-de-boteco, falando sobre a existência de Deus, procurando um culpado pra recessão ou tentando convencer algum teimoso de que o Messi é melhor que o Cristiano Ronaldo (sim, ele é). Se você sabe o que é gastar litros de saliva, tomar 15 saideiras, usar todos os textões de facebook que você leu um dia antes e não chegar a absolutamente nenhum lugar, então você me conhece mais do que pensa. Sempre fui um turbilhão de ideias – e muita gente por aí também.
E nem falo das opiniões acerca das atualidades. Tudo bem que a guerra diária de posts nos obriga, hoje, a sermos sociólogos, embriologistas, cientistas políticos e engenheiros aeronáuticos, tudo na mesma conversa (inclusive, nunca pensei que conheceria tantos especialistas no meu ciclo social). Mas a confusão a que me refiro abrange, na verdade, perguntas bem mais simples e subjetivas do que “você é a favor ou contra a PEC55?”. São algúmas dúvidas intranscritíveis (essa palavra existe?), que se escondem atrás do intenso movimento cotidiano.
De segunda à segunda, principalmente no infinitísssssimo mês de agosto, usa-se toda a capacidade cerebral para o trabalho, universidade ou pra definir se o Impeachment foi ou não foi golpe (foi!!!). Sabemos de tudo, opinamos em tudo, ouvimos de tudo e tudo enxergamos (…tal e qual o avôzinho infeliz de Quintana). Mas aí é que tá. Tentamos tanto ser tudo que, ao final, nem sabemos mais o que somos. Ou o que éramos. Ou o que seríamos. Ou sei lá o quê.
Agitados, nós olhamos pra lagoa e não enxergamos nem o reflexo do próprio rosto. Tudo o que temos ali é um eu desfocado, uma imagem distante da verdadeira essência. Não que saibamos o que éramos, mas sabemos com certeza “isso aqui eu não sou!”. E quando vida, inconveniente, pergunta “quem é você?”, a resposta simplesmente não aparece.

A boa notícia é que, na maioria das vezes, nem é preciso sair da sua lagoa. Só, simplesmente, pare e espere um pouquinho.
Pare e deixe a água acalmar.
Pare – por 15 segundos ou um mês de férias – mas pare.
E quando menos perceber, não será só o seu reflexo que estará à frente – mas também toda a abóboda celeste.

da eternidade

dançando, gozo e dor,
são semente e flor.
são estações, amor, certezas, fartura e escassez
são a própria idade.
se alternam, se findam, se vão e recomeçam, sempre outra vez,
embaçando a realidade…
mas em meio à essa sinfonia,
proponho um brinde ao detentor da verdadeira eternidade:
o problema.

do ser

nossos laços, repletos de nós
atam e desatam ao sussurro da voz.
giramos a sós, como luas e sóis
não viemos de ruas, somos girassóis.

sou parte de nós, sou parte de vós
sou vários retalhos desaguando na foz
sou foz de almas, que dissolvem veloz
nas palmas do tempo, preciso algoz.

homem moderno

o eternamente insatisfeito
vazio de peito, bate a porta
vazio de peito, não se conforta.

de um jeito qualquer, seu leito:
só é, sol foi.

“sou feito… homem feito!”
de razão cheio, de mágoa repleto,
mas não descoberto!

“sei que encubro.
o rubro de meus olhos
o rubro de meu ódio.
pago minhas contas e sou o que for pra ser!
sou até ser!
sou até só…
sou só.”