da eternidade

dançando, gozo e dor,
são semente e flor.
são estações, amor, certezas, fartura e escassez
são a própria idade.
se alternam, se findam, se vão e recomeçam, sempre outra vez,
embaçando a realidade…
mas em meio à essa sinfonia,
proponho um brinde ao detentor da verdadeira eternidade:
o problema.

do ser

nossos laços, repletos de nós
atam e desatam ao sussurro da voz.
giramos a sós, como luas e sóis
não viemos de ruas, somos girassóis.

sou parte de nós, sou parte de vós
sou vários retalhos desaguando na foz
sou foz de almas, que dissolvem veloz
nas palmas do tempo, preciso algoz.

homem moderno

o eternamente insatisfeito
vazio de peito, bate a porta
vazio de peito, não se conforta.

de um jeito qualquer, seu leito:
só é, sol foi.

“sou feito… homem feito!”
de razão cheio, de mágoa repleto,
mas não descoberto!

“sei que encubro.
o rubro de meus olhos
o rubro de meu ódio.
pago minhas contas e sou o que for pra ser!
sou até ser!
sou até só…
sou só.”

nosso nó

Tom: E

Pequena,
Mostra o teu calor
Não deixa apagar

Morena,
Esse teu sabor
Doma quem provar.

Óh, a cena
De nós dois juntos depois
Desata, amarra, empurra, agarra
Sorria chorando pra mim

Óh que pena, morena
Que a noite, serena
Pequena foi para o amor
Uma canção rouca
O gosto na boca
Restaram pra mim

O nosso nó que afroxou
Não tem porque soltar
O que de nós entrelaçou
Aperto devagar

poapropa

remo enquanto posso…
a neblina espessa envolve,
o frio corrói meus ossos,
o resto de fé se dissolve.

a luz esvai minha mente
o pulso fica mais forte
penso que quem já não sente
em vez da morte, tem sorte.

vazio que seca garganta
que vem com cheiro de chuva
que não avisa, espanta;
que deixa a visão turva.

não vejo nada mais que neblina!
voltas e voltas, pra nenhum lugar
não começa, não termina
fim não há, fim não há!
só alimento minha sina
de, sem rumo, remar.

areia

desço agora as ruas de pedra
sentindo falta do asfalto
as igrejas ao pôr do sol
também me lembram os pés descalços
na areia, nossos corpos se sujando
e eu dizendo naquele instante
“eternamente eu te amo”
“eternamente, eu te amo”
seu sorriso por aqui, custo achar
continuo vagando, procurando…
só que nenhuma destas camas me esquenta
seja lá quem estiver nelas
e beijando outros corpos, vejo
o quanto me deixou sequelas
meu padrão por muito tempo foi você
mas meu tempo já não é mais tão padrão
me iludo às vezes, nem sei porquê,
que voltar pra “casa”
pra areia
pra você
seria solução.