marejar

 

olho marejado. olho o mar e já penso:
e se o mar fosse, hoje, a nossa paixão?

seria calmo, agitado, raso ou imenso?
seria mar mesmo ou seria sertão?

vamos supor que seria sertão
seria tão seco que não dá pra molhar?
regar a secura com meu coração?

se nem todo mar que coube em mim
regou a secura do seu coração
o que seria cura então…?

olho marejado. olho o mar e já penso:
se cê secou de tanto chorar
morri afogado por tanta paixão.

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02/17 – ES

​ladrão mata civil e 

civil paga governo e 

governo paga polícia e 

polícia mata ladrão e 

civil vira polícia e 

governo não paga polícia mais e 

polícia vira ladrão e 

ladrão mata ladrão.
500 anos de perdão e 

polícia tira o brasão e 

polícia tira a polícia e 

governo chama soldado.
civil aplaude soldado e 

soldado mata ladrão e 

governo aplaude soldado e 

civil aplaude governo.
civil elege governo e 

governo exclui civil e 

civil vira ladrão mas

continua sendo civil.
governo mata polícia

governo mata soldado

governo mata civil.

puta que pariu.

já não sei mais quem é governo, polícia, ladrão ou civil.

pra moça que canta

tua voz, concerta
meu olhar desconserta.
teu canto me ganha
no canto, te ganho.

aí espira mais forte,
e expira minha paz…
inspira meu norte
inspira e canta uma vez mais.

se ainda é cedo,
me controlo,
não cedo.
mas ao breu…
te tomo ao colo,
te tiro o medo.

aí sem dó, me perverte
e o sol já não veste
onde lá me perdi.

num acorde tocado
acordo assustado:
te ouvindo, sonhei
te ouvindo, dormi.

…na lagoa

Você com certeza já teve aquelas discussões final-de-boteco, falando sobre a existência de Deus, procurando um culpado pra recessão ou tentando convencer algum teimoso de que o Messi é melhor que o Cristiano Ronaldo (sim, ele é). Se você sabe o que é gastar litros de saliva, tomar 15 saideiras, usar todos os textões de facebook que você leu um dia antes e não chegar a absolutamente nenhum lugar, então você me conhece mais do que pensa. Sempre fui um turbilhão de ideias – e muita gente por aí também.
E nem falo das opiniões acerca das atualidades. Tudo bem que a guerra diária de posts nos obriga, hoje, a sermos sociólogos, embriologistas, cientistas políticos e engenheiros aeronáuticos, tudo na mesma conversa (inclusive, nunca pensei que conheceria tantos especialistas no meu ciclo social). Mas a confusão a que me refiro abrange, na verdade, perguntas bem mais simples e subjetivas do que “você é a favor ou contra a PEC55?”. São algúmas dúvidas intranscritíveis (essa palavra existe?), que se escondem atrás do intenso movimento cotidiano.
De segunda à segunda, principalmente no infinitísssssimo mês de agosto, usa-se toda a capacidade cerebral para o trabalho, universidade ou pra definir se o Impeachment foi ou não foi golpe (foi!!!). Sabemos de tudo, opinamos em tudo, ouvimos de tudo e tudo enxergamos (…tal e qual o avôzinho infeliz de Quintana). Mas aí é que tá. Tentamos tanto ser tudo que, ao final, nem sabemos mais o que somos. Ou o que éramos. Ou o que seríamos. Ou sei lá o quê.
Agitados, nós olhamos pra lagoa e não enxergamos nem o reflexo do próprio rosto. Tudo o que temos ali é um eu desfocado, uma imagem distante da verdadeira essência. Não que saibamos o que éramos, mas sabemos com certeza “isso aqui eu não sou!”. E quando vida, inconveniente, pergunta “quem é você?”, a resposta simplesmente não aparece.

A boa notícia é que, na maioria das vezes, nem é preciso sair da sua lagoa. Só, simplesmente, pare e espere um pouquinho.
Pare e deixe a água acalmar.
Pare – por 15 segundos ou um mês de férias – mas pare.
E quando menos perceber, não será só o seu reflexo que estará à frente – mas também toda a abóboda celeste.