O amor grande não traz uma felicidade constante – é a principal cilada -, traz uma felicidade irregular, intensa, atávica, que voa muito mais do que o conforto. Na estabilidade, é fácil sair da felicidade e da tristeza. No amor, descobrimos o quanto podemos ser felizes. E incomoda ter que buscar mais felicidade. Descobrimos o quanto podemos também ser tristes, e incomoda que não sairemos da tristeza sem que o amor volte.
Há gente que não tem esperança para de arrepender. Que sente ciume de não ter sido assim antes e não se permite não ser mais como antes. Que vai terminar o amor pra não se mostrar incompetente. Que prefere adiar o julgamento a se abrir para a verdade. Que não perdoa no momento de se perdoar. Um amor miúdo vai ao psiquiatra de manhã e termina a relação de noite. O amor grande termina com o psiquiatra de manhã r se reconcilia à noite.
Porque o amor grande é uma insanidade lucida, nem os melhores amigos entendem, é detratar e se retratar com mais frequência do que se gostaria. Amor é o excesso de responsabilidade, de encargo, confiado a quem nos acompanha. Oferecemos o que não conseguimos alcançar.

Fabrício Carpinejar

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primavera

não entendo o que aconteceu
fico sem explicação, perco a fé na razão
sem razão pra se ter fé.
minha estrutura, mesmo depois de um imenso terremoto
se manteve de pé…
mas mais forte do que qualquer terremoto,
tsunami, ou todas as catástrofes naturais juntas
mais forte é a ação do tempo
que como o vento
corrói as colunas de aço, oxida todas as vigas
separa…
almas unidas…
e junto com o tempo, vêm as chuvas, vêm os sóis
que abrem sorrisos, mas também molham lençóis
abrem abismos que originam rios, logo após
algas, logo após
peixes, caranguejos, caracóis
logo após.
e quando fecho os olhos, sentindo o chão tremer
abro devagar os estes olhos, assisto o verde crescer
no lugar do velho e rígido concreto que eu chamava de
“mundo”.
a verdade é que sou saudoso, sim, com o passado
e não consigo me acostumar com esse ‘novo’
e se eu tivesse a oportunidade,
com certeza,
voltaria pra só mais um abraço
mas sei que o nascer de uma flor
pressupõe o morrer da semente
e em minha mente, sei também que se aqui é inverno
em algum lugar é verão
e ansioso, fico na espera
que depois desses longos outonos
eu compartilhe com você mais uma primavera

paz

Inundam os estalos ensurdecedores
caem as gotas, toneladas de dores
tempestades vis pra quem mora em barracos

ouçam os tambores! ouçam os tambores!
essas oferendas, nada agradam os credores
de milagres ilusórios que juntam os cacos.

arrepia-me até o último pêlo,
a possibilidade de vê-lo
Perder seu tesouro, seu sorriso no rosto
forçar no espelho com suco sem gosto.
Sem sal.
De salgado só as lágrimas das feridas abertas…
E no meio desse vendaval,
Uma enxurrada reviravoltas incertas
Um banco de praça me alerta
Que paz é estar nessa chuva toda e nem se molhar.

estrada II

Aqui estamos, novamente
Na estrada da vida, na rua da mente
Entre lapsos de preguiça, o tempo passa
Areia movediça,
mistura-se com a cobiça
de chegar logo e beber da taça
de sua pacífica mesa.
a alva luz refletindo a beleza
do lugar, dos convidados, de você
mas ainda há chão pra ser andado
asfalto pra ser pisado
horas que vêm cobrar nossas dívidas
dívidas com o mundo
com o tempo
e com espaço
elas vêm levando tudo o que tenho,
e quando elas se vão, eu venho
até sua porta dizer: cheguei!

Palavras

Ahhhhhhhh, como eu amo essa tela em branco! Ela está aqui como uma adolescente que olha para o seu namorado, clamando por um beijo. Passadas então, as preliminares das letras, tenho que confessar algo: me apaixono cada dia mais pela vida. E como qualquer ser humano que já se apaixonou sabe, enchemo-nos de promessas não cumpríveis, palavras sentidas mas não pensadas, elogios e sóbrios devaneios. É notável a nossa necessidade de expressão perante esse universo assombroso, tão blasfemado pela rotina carrancuda que insiste em nos cegar.
Preciso me expressar… Escrever é um processo extasiante pois desvenda-se os próprios hieroglifos da consciência. As palavras tanto me atingem que penso eu, o cosmo deve ter sido um resultado de um alinhamento delas, uma harmonia tão perfeita que criou tudo ao nosso redor. As palavras são ao mesmo tempo divinas e humanas.
Conseguem juntar a tricotomia alma-espírito-corpo de uma maneira que nos traz além de existência, vida. Palavra é vida.
Imagine a quantidade de lágrimas que seriam derramadas se não houvessem mensagens de consolo, amor e esperança. Imagine o quantidade de lágrimas que deixariam de ser derramadas se os poemas, histórias, relatos e sussurros de amor não cutucassem de vez em quando nosso ego barbudo, que no fundo ainda é um jovem ansioso por sentir.
As palavras são o que não nos deixam explodir, tampouco esvaziar. Palavras são matéria e ao mesmo tempo anti-matéria. Palavras regem a harmonia do Universo, que está afinado em um tom que não conseguimos distinguir mas ainda sim conforta nossos ouvidos. Palavras que trazem caos, que nos deixam desamparados quando cientes de nosso tamanho real diante de tudo. Pequenos, absolutamente pequenos, tão pequenos que me faltam palavras pra definir. Definir! Definimos tudo! As definições deixam tudo menor para nós, nos sentimos participantes ativos desse jogo de átomos e mais átomos. Através de nossas definições, esboçamos rumos que saciem (ou tentam) nosso apetite voraz da emoção, do espírito e do intelecto. Palavras tentam traduzir toda nossa Energia, ilegível, mas nos vemos frustrados: se toda energia virasse palavra, não haveria energia e assim, os trens perderiam seus trilhos.
Impressionante, chego a conclusão que palavras são como fios!
Mas acho que embolei a fiação aqui, então por hoje é só. Tenho sérios problemas com eletricidade.

dinâmica

vejo os carros que se ultrapassam, brigam
se estressam, se desgraçam
e chegam ao mesmo sinal…
sinal cuja cor é a insônia nos olhos
de quem se engasga no choro
dos problemas com gosto de soro caseiro
vejo um dia inteiro
que se vai
…e você nem deu bom dia ao dia.
vejo gente brigando com o tempo
lutando por mais uma volta no ponteiro
mas ao mesmo tempo, desperdiçam ao vento
o tesouro emprestado pelo carpinteiro.
há os que tornam tudo banal
há os que ‘vivem’ intensamente o material
e aos 45 do segundo tempo,
só sobram alguns segundos de alento
dizendo assim:
eu te avisei!

1SIM(N)

sujo, vazio, errado, sombrio.
caminho que leva ao abismo, falta sorriso
ausência de noção das coisas que viso
corpo somente, alma e mente
longe estão, espírito fujão
ou fui eu que afastei mais um irmão?
sangue nas mãos, pinga no chão
revivo o árduo véu rasgado de outro milênio
morrendo achando que é gênio
tá mais pra ingênuo,,, ou nada ingênuo.