Poema 13

da vida,

cargo mor, te observa
não hesita nem releva
frente à sorte, tropeça.
vem a morte e leva
traz paz, leva luz
é cego que conduz
um perdido avestruz!
morte e pus, eu me pus
na janela à observar
frente à sorte, tropeça
despenca do nono andar.

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A vida é feita de detalhes

Os nuances, as minúcias… Quem se lembra delas no final do dia?
Somos doutrinados a uma vida de protagonismos holywoodianos, verdadeiros clímax românticos, e acabamos nos esquecendo dos cenários, dos ornamentos, dos pingos nos i’s. Nos prendemos ainda em um mundo de contas exatas, mesmo sabendo que a maioria desses cálculos pouco se aplicam na vida fora do papel. Os matemáticos e físicos de verdade sabem do que eu falo, com suas equações caóticas e teorias quânticas, tentativas de saber o incerto…
Nos esquecemos, às vezes, dos furacões do norte, frutos das borboletas voando ao sul. Ouvimos falar do tamanho das estrelas, das nebulosas e das galáxias, mas aquela chuva mais forte – aquela que pára o trânsito – nos deixa assombrados e indignados com a natureza. Precisamos tanto conceituar as coisas, colocá-las dentro de definições, deixá-las ali, paradinhas, sob nossas ordens! Tudo ilusão dessa humanidade moderna que desacostumou a não saber, que não gosta de se surpreender, e que fica p* da vida quando o Google não acha uma resposta.
Uma surpresa: talvez o melhor time do campeonato não ganhe, culpa do lateral que ajeitou o meião na hora errada. Talvez aquele casal, “de novela”, se separe em razão daquela flor que quase foi comprada, mas que ficou pra outro dia e, no fim, pra nenhum. Talvez aquele renomado médico, pesquisador chefe dos novos trabalhos contra o câncer, esqueça de pôr o cinto de segurança logo no dia em que outro motorista, vindo no cruzamento, abriu uma “exceçãozinha” e “desceu uma breja”. Como dizem por aí, “é a vida…”. Não importa, porém, quantas vezes a dupla morte/amor nos mostre que não estamos no controle: domingo à noite planejaremos nossos passos pra segunda de manhã.
E sabe porque erramos tanto nas nossas previsões? Porque desconsideramos os detalhes. E a vida é feita de detalhes.

Enquanto as folhas caducas deslizam pelas lâminas do vento, uma banal senhora, vestindo um pseudo jaleco branco, aguarda. Os contrastes à sua volta – pessoas azuis, cinzas e lilás – se unem pelo mesmo motivo: aguardar.

No carvalho, os pássaros. À margem, o andarilho. Na cadeira, um jovem escritor. O universo em consonância grita, nesse milésimo de segundo: estamos esperando!

À direita calcuta um pequeno homem, portando sua lancheira vazia. Às avessas, ele não aborda os abastados implorando por migalhas do resto. Como um errante, sua bússola é sem norte e, à mercê da sorte, ele aguarda. O que aguarda? Sabe-se-lá. Tudo o que se pode fazer é supor: uma oportunidade, um amigo novo, uma chuteira sem cor. O que aguarda, não sei, mas sei que aguarda.

Na calçada de cá, em um fluxo contrário, se aproximam três senhoras. Me pergunto o que os gregos diriam dessa cena: chamariam talvez  cada uma por nome de virtude, como apreciavam. Mas na essência, no cerne do segundo, Sabedoria, Serenidade e Paciência compartilham uma alma. A alma grita: estou esperando! Amarga, amarga e inexorável espera pela morte! Sensação mais-que-forte, aflora no crepúsculo da vida. Mesmo que por diferentes óticas – prévia do paraíso um introdução à cova -, o consenso é único: elas aguardam.

De repente, as correntes de ar voltam a soprar: as caducas caem, caem, caem…

sobre sangue

minhas veias excitadas

pulsam forte e fugaz

gritam às rosas sagradas

suplicando pela paz

choro, mostra compaixão

fogo, jorra sem perdão

escorre a nuca, toca o chão

mancha a injúrie mão

por onde se viu?

por onde se falou?

que no sangue não há honra

que é água sem valor

mais que letras sela o pacto

aquece em fria escuridão

em quem ama, faz intacto

faz cativo o coração

seu sabor, enfim, ilude

ilude humildes, ilude rudes

pois só uma é a condição humana:

se nosso gosto é de ferro,

nosso tempo é de chama.

Vida

naveguei por esses mares
destemido, outrora.
conhecedor ínfimo da vida, é verdade
mas a ignorância é a coragem dos covardes, não é?
de tanto ouvir falar sobre tempestades
cheguei a achar, confesso, que estavam todas em um copo d’água
não aqui, nesse oceano onde me aventuro

só que em uma tarde,
como predadores atacam,
como raios caem,
como montanhas desabam,
como tudo na natureza,
fui pego de surpresa.
uma nuvem, prepotente,
se anunciava em um distante horizonte,
contrária aos ventos,
revelou um destino, um desfecho
um abismo aguardaria
eu e minha nau
ao inexorável desastre.

quando o mal se anuncia,
desperta-se, curiosamente,
algo no ser humano:
a esperança (quase fé)
de que mesmo racionalmente condenado
algo, alguém, Deus, acaso, super-homem, um tornado ou sabe lá o que mais
poderia vir e desviar-te da desgraça.
a razão é uma mera telespectadora nos clímax da vida!

observa-se pois, a emocionante fé se esvaindo
e nó abaixo da garganta, no meio do esôfago
apertando cada vez mais.
o corpo ofega…
as lágrimas precipitam…
assim como a chuva em seu rosto, já se pode senti-lá
a água salgada molha os olhos,
molha a alma,
mas também encharca os calçados.

só nos basta pensar que as correntes que nos trouxeram até aqui
dispõe, de algum modo, de intencionalidade
e que não venhamos a filosofar sobre a natureza dessas intenções,
é doloroso, é complicado, eu diria.
agarre-se ao leme,
agarre-se ao único fator que te ainda faz humano: seu orgulho, sua identidade
e não deixe, jamais, que o mar te engula ajoelhado
chorando o seu fado
que não pudera suportar.

e no fim, descobri que ainda era começo
sem embarcação, sem vestes, sem nada
me vejo em uma ilha, em um porto
uma oferta irrecusável da vida
para recomeçar
vida esta que oferece-nos tantas chances, tantas oportunidades
mas nunca avisa quando será a última.

honrosamente nadei até o porto
mas não sei se é seguro,
e o novo significa novos riscos
e sei, também, que não importa quão calejado sou, ainda posso sentir dor
mas o que farei, afinal?
deixarei meu corpo ao mar para os peixes?
sobreviverei em um buraco, aquém do universo?
não,
não eu!

sou navegante, tenho sangue salgado
e pra te falar a verdade
nunca acreditei muito
nessas histórias de tempestade.

Entre os prazeres da vida e a fugacidade do tempo
Um sol concertado no céu
Parte da melodia que paralisa o alento

Ainda lembro, graciosamente
Da sintonia dos nossos corpos
Da consonância das nossas mentes
Em harmonia com os lás da natureza
Aproximados pelo gélido vento
Esquentados pelo calor da pureza

Quem saberia, quem pensaria
Que aquelas tardes de janeiro
Viriam a ser retratos em minh’alma
Estrelas em meus dias.

Por que Deus permite 
que as mães vão-se embora? 
Mãe não tem limite, 
é tempo sem hora, 
luz que não apaga 
quando sopra o vento 
e chuva desaba, 
veludo escondido 
na pele enrugada, 
água pura, ar puro, 
puro pensamento. 
Morrer acontece 
com o que é breve e passa 
sem deixar vestígio. 
Mãe, na sua graça, 
é eternidade. 
Por que Deus se lembra 
— mistério profundo — 
de tirá-la um dia? 
Fosse eu Rei do Mundo, 
baixava uma lei: 
Mãe não morre nunca, 
mãe ficará sempre 
junto de seu filho 
e ele, velho embora, 
será pequenino 
feito grão de milho. 

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Lição de Coisas’