poapropa

remo enquanto posso…
a neblina espessa envolve,
o frio corrói meus ossos,
o resto de fé se dissolve.

a luz esvai minha mente
o pulso fica mais forte
penso que quem já não sente
em vez da morte, tem sorte.

vazio que seca garganta
que vem com cheiro de chuva
que não avisa, espanta;
que deixa a visão turva.

não vejo nada mais que neblina!
voltas e voltas, pra nenhum lugar
não começa, não termina
fim não há, fim não há!
só alimento minha sina
de, sem rumo, remar.

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areia

desço agora as ruas de pedra
sentindo falta do asfalto
as igrejas ao pôr do sol
também me lembram os pés descalços
na areia, nossos corpos se sujando
e eu dizendo naquele instante
“eternamente eu te amo”
“eternamente, eu te amo”
seu sorriso por aqui, custo achar
continuo vagando, procurando…
só que nenhuma destas camas me esquenta
seja lá quem estiver nelas
e beijando outros corpos, vejo
o quanto me deixou sequelas
meu padrão por muito tempo foi você
mas meu tempo já não é mais tão padrão
me iludo às vezes, nem sei porquê,
que voltar pra “casa”
pra areia
pra você
seria solução.

augusta

ela despenca na rua
escorre com a garoa, ofuscada pela lua
pálida, trêmula, crua.

traga o intragável: seus anseios
leva nos seios o choro, o suor
molhada e seca, gozo e pó.

suas pernas, esguias
calcutam na noite fria
as sombras dos postes: guias
ela traga, ela estraga, é vazia.

encharcada, alma ensanguentada
afogada pelas ânsias, até ria!
a madrugada a toma calada,
afogada em sexo à lá ambrosia.

pensara ser Deus, mas não sabia
era mortal, era gentia
e se dissolveu na brisa
ao amanhecer o dia.

da religião

enfim livre…
feliz, talvez.
como sempre, aliás:
semi-alegre, longe-triste
o ócio assiste
o teclado, me entrega
(por favor, me releva)
minha face? revela;
na manhã seguinte, remela.
sem vela, sem santo
sem um olhar do canto
sem pecado, sem encanto
sem ilusão.
solidão? não: terra à vista!
dominei meu próprio nariz
do pastor que diz
isso ou aquilo… eu?
eu nada. eu nado.
tô tranquilo. e feliz. talvez.

dissolvido

eu era sólido, rígido, definido e assertivo.
se minha estrutura os motivos abalassem,
vivo em mim era o alicerce que me sustentava
a certeza que mantinha, que por mim respirava.

este era eu, repleto de minhas certezas
até que no surgir da aurora me vi nu
e a luz me mostrou o quanto eu nada era,
e que todo aquele equilíbrio não pertencera a mim.

tonto, enfim, não pude caminhar
e tropecei em minhas próprias verdades
tropecei, sim, quando me vi cru
quando vi que tudo o que eu era, na luz, era nada.

o que somos nós? quem somos nós?
se somos apenas um pedaço de carne que alimenta nossos genes
se somos espíritos perdidos em busca do perene
não sei o que somos, não sei o que sou, não sei.

eu era vaidade
era amor, era família, era fé
agora sem tudo isso
olho no espelho e não reconheço quem é

vivemos de reflexos
mas no fundo, somos vampiros
vivemos da noite, criando novos eus a cada dia
mas que, ao sol, são fácilmente queimados
pois, afinal, com o passar da idade
percebemos quão impenetráveis são as palavras do pensador
“Vaidade, vaidade
debaixo do sol,
tudo é vaidade.”