Sobre linhas e tecelãs

Sempre somos tentados a acreditar, em razão de nossos pobres sentidos, que os fios são retos e caminham sempre em uma direção. Alguns pensam diferente. E se o simples for, na verdade, fruto de diversos novelos que se confundem e se embolam? Talvez, se pudéssemos caminhar até a origem desses fios, descobriríamos não um início, mas na verdade um emaranhado de ciclos. Voltas e voltas sem chegar a lugar algum. O máximo que conseguiríamos é traçar as trajetórias imaginárias em nossa rude inteligência…

E não só erraríamos acerca do início e do fim, mas também não perceberíamos os nós ao longo desses fios. Vivemos tão urgentemente os caminhos que nunca percebemos quando estamos em um nó. Temos olhos, mas não conseguimos ver. Temos ouvidos, mas nem por isso conseguimos ouvir… Os ciclos, os nós e as retas: tudo grita para uma existência muito mais complexa, mas ainda sim continuamos na nossa pobre e retilínea percepção. A periodicidade de nossas vidas se tornou tão cronometrada que perdemos a visão do todo!

Andamos, ignorantes e ansiosos, sempre preocupados com o que virá, sem percebermos que estamos em um eterno labirinto. Pobre ser humano, errante, não sabe que o que lhe permite vê é o que lhe cega: nossa forma de existir não permite compreender a existência!

Nosso maior professor de todos os tempos, o céu, nos ilude. Primeiro como dias e noites, hoje como relógio. Segue-se nesse eterno zoom: cada vez mais vivemos mais em uma menor escala de tempo, mas mesmo assim não nos tornamos infinitos. Nem mesmo a criação dos milésimos de segundos nos salvou da morte! Vive-se como se fosse viver para sempre, sem entender o destino de todos os seres…

Como acreditar em uma vida eterna se não compreendemos os ciclos do tecelão? Seria a vida resultado da cegueira do famoso “carpe diem”, onde só conseguimos ver o caminho que percorremos? Damos voltas e voltas pensando que sempre estamos a seguir em frente. E se não houvesse “frente”?…

O tempo, o espaço, a vida e a morte sempre se repetem, mas estamos cegos pelos dias. E se os dias não existissem? E se nossa percepção não fosse periódica, mas sim contínua? Será que conseguiríamos enxergar todos os novelos e nós?

Todos já passamos por nós: alguns mais, outros menos. Os nós são momentos em que a existência se condensa, de modo em que nossa noção de tempo e espaço torna-se muito mais ampla do que a rotina proporciona. Isso porque nossa percepção retilínea não está acostumada com o cruzamento de linhas onde deveria haver uma só. Porém, paradoxalmente falando, os não seriam os nós linhas retas em outra escala?…

O que mais me deixa desolado é: estamos fadados ao nosso próprio caminho? E o que mais me intriga é: somos nós os tecelões desses caminhos, ou será que há um tecelão terceiro, que cria as linhas que escraviza nosso viver? O que pensava Elis quando disse que, apesar de tudo o que vivemos, ainda vivemos como nossos pais?

Somos escolhas ou destino? Ou os dois?

Será que nós mesmos que criamos o labirinto e estamos apenas o percorrendo-o, interminavelmente? Ou será que o labirinto esteve sempre lá, e fomos jogados como ratos de laboratório?

Qualquer possibilidade de resposta é devastadora. Será que não importa o que fizermos, sempre percorreremos os mesmos fios da existência? Seria a diferença entre destino e causalidade uma mera questão de foco?

É tanta coisa na cabeça.

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