…na lagoa

Você com certeza já teve aquelas discussões final-de-boteco, falando sobre a existência de Deus, procurando um culpado pra recessão ou tentando convencer algum teimoso de que o Messi é melhor que o Cristiano Ronaldo (sim, ele é). Se você sabe o que é gastar litros de saliva, tomar 15 saideiras, usar todos os textões de facebook que você leu um dia antes e não chegar a absolutamente nenhum lugar, então você me conhece mais do que pensa. Sempre fui um turbilhão de ideias – e muita gente por aí também.
E nem falo das opiniões acerca das atualidades. Tudo bem que a guerra diária de posts nos obriga, hoje, a sermos sociólogos, embriologistas, cientistas políticos e engenheiros aeronáuticos, tudo na mesma conversa (inclusive, nunca pensei que conheceria tantos especialistas no meu ciclo social). Mas a confusão a que me refiro abrange, na verdade, perguntas bem mais simples e subjetivas do que “você é a favor ou contra a PEC55?”. São algúmas dúvidas intranscritíveis (essa palavra existe?), que se escondem atrás do intenso movimento cotidiano.
De segunda à segunda, principalmente no infinitísssssimo mês de agosto, usa-se toda a capacidade cerebral para o trabalho, universidade ou pra definir se o Impeachment foi ou não foi golpe (foi!!!). Sabemos de tudo, opinamos em tudo, ouvimos de tudo e tudo enxergamos (…tal e qual o avôzinho infeliz de Quintana). Mas aí é que tá. Tentamos tanto ser tudo que, ao final, nem sabemos mais o que somos. Ou o que éramos. Ou o que seríamos. Ou sei lá o quê.
Agitados, nós olhamos pra lagoa e não enxergamos nem o reflexo do próprio rosto. Tudo o que temos ali é um eu desfocado, uma imagem distante da verdadeira essência. Não que saibamos o que éramos, mas sabemos com certeza “isso aqui eu não sou!”. E quando vida, inconveniente, pergunta “quem é você?”, a resposta simplesmente não aparece.

A boa notícia é que, na maioria das vezes, nem é preciso sair da sua lagoa. Só, simplesmente, pare e espere um pouquinho.
Pare e deixe a água acalmar.
Pare – por 15 segundos ou um mês de férias – mas pare.
E quando menos perceber, não será só o seu reflexo que estará à frente – mas também toda a abóboda celeste.

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