dissolvido

eu era sólido, rígido, definido e assertivo.
se minha estrutura os motivos abalassem,
vivo em mim era o alicerce que me sustentava
a certeza que mantinha, que por mim respirava.

este era eu, repleto de minhas certezas
até que no surgir da aurora me vi nu
e a luz me mostrou o quanto eu nada era,
e que todo aquele equilíbrio não pertencera a mim.

tonto, enfim, não pude caminhar
e tropecei em minhas próprias verdades
tropecei, sim, quando me vi cru
quando vi que tudo o que eu era, na luz, era nada.

o que somos nós? quem somos nós?
se somos apenas um pedaço de carne que alimenta nossos genes
se somos espíritos perdidos em busca do perene
não sei o que somos, não sei o que sou, não sei.

eu era vaidade
era amor, era família, era fé
agora sem tudo isso
olho no espelho e não reconheço quem é

vivemos de reflexos
mas no fundo, somos vampiros
vivemos da noite, criando novos eus a cada dia
mas que, ao sol, são fácilmente queimados
pois, afinal, com o passar da idade
percebemos quão impenetráveis são as palavras do pensador
“Vaidade, vaidade
debaixo do sol,
tudo é vaidade.”

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