Enquanto as folhas caducas deslizam pelas lâminas do vento, uma banal senhora, vestindo um pseudo jaleco branco, aguarda. Os contrastes à sua volta – pessoas azuis, cinzas e lilás – se unem pelo mesmo motivo: aguardar.

No carvalho, os pássaros. À margem, o andarilho. Na cadeira, um jovem escritor. O universo em consonância grita, nesse milésimo de segundo: estamos esperando!

À direita calcuta um pequeno homem, portando sua lancheira vazia. Às avessas, ele não aborda os abastados implorando por migalhas do resto. Como um errante, sua bússola é sem norte e, à mercê da sorte, ele aguarda. O que aguarda? Sabe-se-lá. Tudo o que se pode fazer é supor: uma oportunidade, um amigo novo, uma chuteira sem cor. O que aguarda, não sei, mas sei que aguarda.

Na calçada de cá, em um fluxo contrário, se aproximam três senhoras. Me pergunto o que os gregos diriam dessa cena: chamariam talvez  cada uma por nome de virtude, como apreciavam. Mas na essência, no cerne do segundo, Sabedoria, Serenidade e Paciência compartilham uma alma. A alma grita: estou esperando! Amarga, amarga e inexorável espera pela morte! Sensação mais-que-forte, aflora no crepúsculo da vida. Mesmo que por diferentes óticas – prévia do paraíso um introdução à cova -, o consenso é único: elas aguardam.

De repente, as correntes de ar voltam a soprar: as caducas caem, caem, caem…

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sobre sangue

minhas veias excitadas

pulsam forte e fugaz

gritam às rosas sagradas

suplicando pela paz

choro, mostra compaixão

fogo, jorra sem perdão

escorre a nuca, toca o chão

mancha a injúrie mão

por onde se viu?

por onde se falou?

que no sangue não há honra

que é água sem valor

mais que letras sela o pacto

aquece em fria escuridão

em quem ama, faz intacto

faz cativo o coração

seu sabor, enfim, ilude

ilude humildes, ilude rudes

pois só uma é a condição humana:

se nosso gosto é de ferro,

nosso tempo é de chama.