Vida

naveguei por esses mares
destemido, outrora.
conhecedor ínfimo da vida, é verdade
mas a ignorância é a coragem dos covardes, não é?
de tanto ouvir falar sobre tempestades
cheguei a achar, confesso, que estavam todas em um copo d’água
não aqui, nesse oceano onde me aventuro

só que em uma tarde,
como predadores atacam,
como raios caem,
como montanhas desabam,
como tudo na natureza,
fui pego de surpresa.
uma nuvem, prepotente,
se anunciava em um distante horizonte,
contrária aos ventos,
revelou um destino, um desfecho
um abismo aguardaria
eu e minha nau
ao inexorável desastre.

quando o mal se anuncia,
desperta-se, curiosamente,
algo no ser humano:
a esperança (quase fé)
de que mesmo racionalmente condenado
algo, alguém, Deus, acaso, super-homem, um tornado ou sabe lá o que mais
poderia vir e desviar-te da desgraça.
a razão é uma mera telespectadora nos clímax da vida!

observa-se pois, a emocionante fé se esvaindo
e nó abaixo da garganta, no meio do esôfago
apertando cada vez mais.
o corpo ofega…
as lágrimas precipitam…
assim como a chuva em seu rosto, já se pode senti-lá
a água salgada molha os olhos,
molha a alma,
mas também encharca os calçados.

só nos basta pensar que as correntes que nos trouxeram até aqui
dispõe, de algum modo, de intencionalidade
e que não venhamos a filosofar sobre a natureza dessas intenções,
é doloroso, é complicado, eu diria.
agarre-se ao leme,
agarre-se ao único fator que te ainda faz humano: seu orgulho, sua identidade
e não deixe, jamais, que o mar te engula ajoelhado
chorando o seu fado
que não pudera suportar.

e no fim, descobri que ainda era começo
sem embarcação, sem vestes, sem nada
me vejo em uma ilha, em um porto
uma oferta irrecusável da vida
para recomeçar
vida esta que oferece-nos tantas chances, tantas oportunidades
mas nunca avisa quando será a última.

honrosamente nadei até o porto
mas não sei se é seguro,
e o novo significa novos riscos
e sei, também, que não importa quão calejado sou, ainda posso sentir dor
mas o que farei, afinal?
deixarei meu corpo ao mar para os peixes?
sobreviverei em um buraco, aquém do universo?
não,
não eu!

sou navegante, tenho sangue salgado
e pra te falar a verdade
nunca acreditei muito
nessas histórias de tempestade.

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Entre os prazeres da vida e a fugacidade do tempo
Um sol concertado no céu
Parte da melodia que paralisa o alento

Ainda lembro, graciosamente
Da sintonia dos nossos corpos
Da consonância das nossas mentes
Em harmonia com os lás da natureza
Aproximados pelo gélido vento
Esquentados pelo calor da pureza

Quem saberia, quem pensaria
Que aquelas tardes de janeiro
Viriam a ser retratos em minh’alma
Estrelas em meus dias.

Por que Deus permite 
que as mães vão-se embora? 
Mãe não tem limite, 
é tempo sem hora, 
luz que não apaga 
quando sopra o vento 
e chuva desaba, 
veludo escondido 
na pele enrugada, 
água pura, ar puro, 
puro pensamento. 
Morrer acontece 
com o que é breve e passa 
sem deixar vestígio. 
Mãe, na sua graça, 
é eternidade. 
Por que Deus se lembra 
— mistério profundo — 
de tirá-la um dia? 
Fosse eu Rei do Mundo, 
baixava uma lei: 
Mãe não morre nunca, 
mãe ficará sempre 
junto de seu filho 
e ele, velho embora, 
será pequenino 
feito grão de milho. 

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Lição de Coisas’