eu, desatento, pra variar
não enxerguei que o vento, ao passar
deixou ao meu lado uma flor, pequena flor.
e como toda vez que me surpreendo,
fiquei inseguro, e no momento
refleti:
será que vale à pena
investigar essa pequena?
pequena flor, logo senti seu odor
era mesmo um perfume, doce e suave
que confundia-se com sua cor, díspar cor
de embriagar qualquer ave

fiquei intrigado, até incomodado
como uma flor assim pára logo do meu lado?
lógico que eu não ficaria parado…
até demorei… mas entendi o recado.

brisa que vem e refresca,
o sol já dormia…
enquanto isso, na sua testa
(E que testa!)
escrito porque sorria.
e a flor, antes fechada
que eu só conhecia de fachada
lentamente desabrochava…

pensei então em meus jardins
de todas aquelas plantas, só a de Lins
que conheci no rio, mas que gosta de lagoa
me deixa hoje, agora, rindo à toa.

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me falta o ar
o vento virou brisa
e a brisa desapareceu.
essa quietude me deixa louco.
aos poucos me afasto das boas correntes
e desço à vales quentes,
embriagado pelas minhas escolhas…
E pelas minhas lembranças cheias de dor, e de amargura.
sempre há a escolha, vejo eu, entre sentir a dor e saboreá-la
em qualquer caso, fugir dela nunca é a opção
se correr o bicho pega,
se ficar o bicho come
porque eu sou é homem,
e homem também chora, muito.
construí minha casa, talvez
em terreno arenoso,
só que dessa vez
a tempestade levou tudo embora.
espasmos e gemidos reprimidos
por um fardo de responsabilidade
escrevo versos sofridos
que não contam a verdade…
são só um escape
um exagero ultrarromântico
um desabafo

Palavras

Ahhhhhhhh, como eu amo essa tela em branco! Ela está aqui como uma adolescente que olha para o seu namorado, clamando por um beijo. Passadas então, as preliminares das letras, tenho que confessar algo: me apaixono cada dia mais pela vida. E como qualquer ser humano que já se apaixonou sabe, enchemo-nos de promessas não cumpríveis, palavras sentidas mas não pensadas, elogios e sóbrios devaneios. É notável a nossa necessidade de expressão perante esse universo assombroso, tão blasfemado pela rotina carrancuda que insiste em nos cegar.
Preciso me expressar… Escrever é um processo extasiante pois desvenda-se os próprios hieroglifos da consciência. As palavras tanto me atingem que penso eu, o cosmo deve ter sido um resultado de um alinhamento delas, uma harmonia tão perfeita que criou tudo ao nosso redor. As palavras são ao mesmo tempo divinas e humanas.
Conseguem juntar a tricotomia alma-espírito-corpo de uma maneira que nos traz além de existência, vida. Palavra é vida.
Imagine a quantidade de lágrimas que seriam derramadas se não houvessem mensagens de consolo, amor e esperança. Imagine o quantidade de lágrimas que deixariam de ser derramadas se os poemas, histórias, relatos e sussurros de amor não cutucassem de vez em quando nosso ego barbudo, que no fundo ainda é um jovem ansioso por sentir.
As palavras são o que não nos deixam explodir, tampouco esvaziar. Palavras são matéria e ao mesmo tempo anti-matéria. Palavras regem a harmonia do Universo, que está afinado em um tom que não conseguimos distinguir mas ainda sim conforta nossos ouvidos. Palavras que trazem caos, que nos deixam desamparados quando cientes de nosso tamanho real diante de tudo. Pequenos, absolutamente pequenos, tão pequenos que me faltam palavras pra definir. Definir! Definimos tudo! As definições deixam tudo menor para nós, nos sentimos participantes ativos desse jogo de átomos e mais átomos. Através de nossas definições, esboçamos rumos que saciem (ou tentam) nosso apetite voraz da emoção, do espírito e do intelecto. Palavras tentam traduzir toda nossa Energia, ilegível, mas nos vemos frustrados: se toda energia virasse palavra, não haveria energia e assim, os trens perderiam seus trilhos.
Impressionante, chego a conclusão que palavras são como fios!
Mas acho que embolei a fiação aqui, então por hoje é só. Tenho sérios problemas com eletricidade.