Aside

Clara e salgada,
Cabe em um olho e pesa uma tonelada,
Tem sabor de mar,
Pode ser discreta,
Inquilina da dor,
Morada predileta.,
Na calada ela vem,
Refém da vingança,
Irmã do desespero,
Rival da esperança,
Pode ser causada por vermes e mundanas
Ou pelo espinho da flor,
Cruel que você ama,
Amante do drama,
Vem pra minha cama,
Por querer, sem me perguntar me fez sofrer,
E eu que me julguei forte,
E eu que me senti,
Serei um fraco,
Quando outras delas vir,
Se o barato é louco e o processo é lento,
No momento,
Deixa eu caminhar contra o vento,
Do que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável,
O vento não, ele é suave, mas é frio e implacável,
(é quente) borrou a letra triste do poeta,
(só) correu no rosto pardo do profeta.
Verme sai da reta,
A lágrima de um homem vai cair,
Esse é o seu B.O. Pra eternidade,
Diz que homem não chora,
Ta bom, falou, não vai pra grupo irmão ai
Jesus chorou!

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Sim ou Curitiba?

1) Você faz o vestibular. Você:
a) passa.
b) não passa.

2) Você passa no vestibular. Você:
a) comemora com colegas que também passaram, abraça todo mundo, grita, quando vê está pulando no mesmo lugar abraçado a uma menina que você nunca viu e que se chama Maria Cristina.
b) comemora com seus familiares, faz todo o seu curso sonhado de Engenharia, custa a arranjar emprego, finalmente se associa a um primo e abre uma lavanderia, casa, tem filhos, netos, uma vida razoável e morre de uma falha do coração artificial em 2044.

3) Você não passa no vestibular. Você:
a) pensa em se matar, pensa em se dedicar ao crime, finalmente decide fazer um curso técnico, torna-se líder sindical, depois entra na política, acaba sendo o segundo torneiro mecânico eleito presidente na História do Brasil.
b) tenta de novo, e de novo, e de novo e acaba casando com uma viúva rica que é, inclusive, dona de uma universidade.

4) A Maria Cristina lhe dá seu telefone. Você:
a) não liga para ela, nunca mais a vê, e sai desta história incólume.
b) liga para ela, e vocês combinam se encontrar, apesar do seu pressentimento de que aquele sinalzinho que ela tem perto do canto da boca não pode dar em boa coisa.

5) Você e a Maria Cristina se encontram, na casa dela. Ela:
a) está sozinha em casa.
b) está com o pai, a mãe, um irmão/armário, duas tias grandes e um pit bull e nada acontece.

6) Ela está sozinha em casa. Vocês:
a) se amam loucamente e juram que nunca mais vão se separar.

7) Vocês se amam loucamente e juram que nunca mais vão se separar. Você:
a) a pede em casamento, e ela aceita.

8) Você a pede em casamento e ela aceita. Você:
a) chega em casa com a notícia, a sua família não concorda, diz que aquilo é uma loucura, que vocês são muito jovens, que precisam pensar, que onde se viu, que não contem com o dinheiro deles, que você vai jogar a sua vida fora por um sinalzinho perto do canto da boca, que blablablá, e você sai dizendo que vai fugir com ela e pronto e bate a porta.
b) chega em casa com a notícia, que causa um escândalo, e você se convence que seria loucura mesmo, que o melhor é namorarem, os dois terminarem a faculdade, e no fim, se o amor ainda existir, pensarem no que fazer, e sua história também termina aqui.

9) Você a pede em casamento, ela diz que é melhor dar um tempo, você concorda, mas semanas depois ela diz que está grávida. Você:
a) casa com ela.
b) foge para Curitiba.

10) Você a pede em casamento, ela aceita, seus pais não aceitam, os pais dela não aceitam, você foge com ela. Você:
a) é obrigado a desistir de estudar e acaba vendendo artesanato na calçada para sustentá-la, sentindo que jogou a sua vida fora e lamentando a comemoração do maldito vestibular.
b) e ela vão viver em Santa Catarina, amam-se loucamente, mas voltam duas semanas depois, a tempo de se inscrever em suas respectivas faculdades, e ficam bons amigos.

11) Ela diz que está grávida e vocês decidem se casar, com a bênção resignada das famílias. Você: a) usa a ajuda que recebeu do seu pai para comprar uma van a prestação, acaba com uma frota de vans, fica rico, aparece na Caras, tem filhos e netos e morre de uma falha do coração artificial em 2044.
b) descobre, horrorizado, no altar, que o sinalzinho perto do canto da boca era pintado e agora está perto do olho, e pensa em como seria bom se a gente pudesse voltar atrás e corrigir todas as escolhas erradas que fez na vida, mas como saber se a escolha era errada ou não, já que a vida não tem gabarito?

12) O padre pergunta se você aceita a Maria Cristina como sua esposa. Você:
a) diz “sim”.
b) foge para Curitiba.

Luis Fernando Veríssimo

Conjuntura eterna

O que a gente pensa, do jeito que a gente pensa, só a gente vai saber.
Mas há como mostrar isso para outras gentes, além da gente, e descobrir o subjetivo desse mundo, ou seja, o que está por trás das gentes…
Descobrir novas formas de ver.

O objetivo desse blog é mostrar a minha forma de ver. E por mais inútil que seja, uma nova opinião de mundo sempre é bem-vinda. Quanto mais visões diferentes, mais estabelecemos nossas convicções, dúvidas, o que achamos sobre isso ou aquilo.
Viu, isso já é mais um motivo pra você terminar de ler esse post, haha.

Você deve estar se perguntando, “mas que porra é essa de conjuntura eterna?”, porque até agora esse título não fez sentido. Se você pensou isso, parabéns, você lê com atenção. Muy bueno… Enfim.

Por incrível que pareça, pra mim, a coisa mais difícil num texto é redigir a primeira frase. E matutando aqui, me veio:

“A cada dia que se passa…”

Sim, esse clichê de cursinho era como eu iria começar o texto. Mas pensando bem, ele tem mais a ver com o assunto do que tudo o que você leu até agora.

É incrível o que a rotina faz conosco. A vida se torna um dia que se passa, outro que chega, “daqui duas semanas tem feriado”, “tô doido pra chegar sábado logo mano”. Já se sabe o que vai ser feito ao acordar, no almoço, a hora de chegar em casa, olha, já são 0h, amanhã “tudo de novo”. E toda uma sociedade acomodada nesse eterno pêndulo urbano,
vai,
volta,
vai,
volta.

Nesse “Estado democrático de direito” tão venerado pelos intelectuais da nossa época, te pergunto: você é realmente livre?
Afinal, todo mundo tem um pouquinho de Danton escondido dentre as costelas. Nós, seres humanos, com o “sopro de vida dado por Deus” (posso chamar assim a consciência?), temos anseio pela ideia de liberdade.
Façamos uma nova pergunta.

Amanhã, se você sentisse vontade de andar na areia, nadar até uma ilha, olhar o nascer do sol sem se preocupar com qualquer coisa da sua vida aqui “fora”, você conseguiria?

Não minta para si mesmo…

Nessa sociedade capitalista (no fim é tudo culpa do capitalismo, não é verdade? hauehaueh) nós temos função social. Ou você cumpre sua função, ou será excluído da sociedade. Você deve dinheiro ao governo, trabalhe sua vida inteira para pagar 30, 40% em impostos. Gere filhos. Ensine-os a “ser alguém na vida”, a ganhar muito dinheiro, pra aproveitar “o que a vida tem de melhor”. “Pense no seu futuro”.

Sufocante.

Enquanto você “vive”, a vida passa meu querido. Talvez aquela menina, que você queria falar mas preferiu ir pra casa estudar, poderia ter sido o amor da sua vida. Talvez, talvez, mas não foi. Assim como tudo nesse mundo, passou.

Veja, não quero ser hipócrita. Estudo, quero ter filhos, quero trabalhar (medicina 2014 tamo aê), como quase todo mundo. No entanto, não quero me perder no senso comum, não quero ser mais um, não quero me entregar ao comodismo do sofá num dia de domingo (falcão, seu gênio!). Eu olho para as pessoas à minha volta, e me bate um desespero broder. Conheço poucas pessoas que me acrescentem ideias, que converso e depois penso “cara, sou outra pessoa”.
Talvez, essas “pessoas normais”, tenham esse mesmo pensamento. Talvez elas se escondem por trás de máscaras sociais, como a beleza ou a ostentação que o dinheiro proporciona. Vai saber né.

Como eu disse, queria muito descobrir o subjetivo desse mundo. Descobrir o que está dentro da cabecinha de cada um. Mas como não posso, basta interagir, imaginar, conversar. Só peço que as pessoas sejam menos “passageiras” e se tornem um pouquinho mais “eternas”.

Eu?

Por Luís Fernando Veríssimo.

Sumido. Do baú. Me disseram “Você anda sumido” e me dei conta de que era verdade. Eu também, fazia tempo que não me via. O que teria acontecido comigo? Não me encontrava nos lugares em que costumava ir. Perguntava por mim e as pessoas diziam “é verdade, você anda sumido”. E “Que fim levou você?”. Eu não tinha a menor idéia que fim tinha me levado. A última vez em que me vira fora, deixa ver… Eu não me lembrava! Eu teria morrido? Impossível, na última vez em que me vira eu estava bem. Não tinha, que eu soubesse, nenhum problema grave de saúde. E, mesmo, eu teria visto o convite para o meu enterro no jornal. O nome fatalmente me chamaria a atenção. Eu podia ter mudado de cidade. Era isso. Podia ter ido para outro lugar, podia estar em outro lugar naquele momento. Mas por que iria embora assim, sem dizer nada para ninguém, sem me despedir nem de mim? Sempre fomos tão ligados. No outro dia fui a um lugar que eu costumava freqüentar muito e perguntei se tinham me visto. Não era gente conhecida, precisei me descrever. Não foi difícil porque me usei como modelo. “Eu sou um cara, assim, como eu. Mesma altura, tudo.” Não tinham me visto. Que coisa. Pensei: como é que alguém pode simplesmente desaparecer desse jeito? Foi então que comecei, confesso, a pensar nas vantagens de estar sumido. Não me encontrar em lugar algum me dava uma espécie de liberdade. Podia fazer o que bem entendesse, sem o risco de dar comigo e eu dizer “Você, hein?”. Mudei por completo de comportamento. Me tornei — outro! Que maravilha. Agora, mesmo que me encontrasse, eu não me reconheceria. Comecei a fazer coisas que até eu duvidaria, se fosse eu. O que mais gostava de ouvir das pessoas espantadas com a minha mudança era: “Nem parece você.” Claro que não parecia eu. Eu não era eu. Eu era outro! Passei a me exceder, embriagado pela minha nova liberdade. A verdade é que estar longe dos meus olhos me deixou fora de mim. Ou fora do outro. E um dia ouvi uma mulher indignada com o meu assédio gritar “Você não se enxerga, não?”. E, então, tive a revelação. Claro, era isso. Eu não estava sumido. Eu simplesmente não me enxergava. Como podia me encontrar nos lugares onde me procurava se não me enxergava? Todo aquele tempo eu estivera lá, presente, embaixo, por assim dizer, do meu nariz, e não me vira. Por um lado, fiquei aliviado. Eu estava vivo e bem, não precisava me preocupar. Por outro lado, foi uma decepção. Concluí que não tem jeito, estamos sempre, irremediavelmente, conosco, mesmo quando pensamos ter nos livrado de nós. A gente não desaparece. A gente às vezes só não se enxerga. A decisão. A moça suspirou fundo, pensou em todas as maneiras como podia mudar a sua vida — casar com um analista de sistemas ou um contrabaixista, entrar para uma ordem religiosa, cortar a carne vermelha e os derivados do leite ou até voltar para Faxinal do Soturno — e finalmente decidiu mudar de nome.— Vou me chamar Gwyneth. Não era nada, não era nada, já era um começo.